Soja: benefícios, proteína completa, isoflavonas e valores nutricionais

grãos de soja dourados e edamame verde fresco em taças sobre superfície de madeira

A soja (Glycine max) é a leguminosa mais estudada cientificamente do mundo — e também a mais controversa. Com mais de 2.000 estudos clínicos publicados, a soja é simultaneamente um alimento com benefícios muito bem documentados para a saúde cardiovascular, controlo glicémico e sintomas da menopausa, e um alimento cercado de mitos sobre cancro, hormonas e disfunção tiroideia que a evidência científica actual contradiz na sua maioria. Os benefícios da soja derivam da combinação única de proteína completa de alta qualidade (a única leguminosa com perfil de aminoácidos equivalente à proteína animal), isoflavonas (fitoestrogénios com acção hormonal modulada e dose-dependente) e um perfil lipídico muito favorável com ómega-3 e ómega-6 em proporções equilibradas.

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⚠️ Aviso médico: Este artigo tem fins exclusivamente informativos. Pessoas com cancro hormono-dependente, hipotiroidismo medicado ou alergia à soja devem consultar o médico antes de consumir soja em quantidades elevadas.

Valor nutricional da soja cozida

Por 100g de soja cozida: 173 kcal; 16,6g de proteína (PDCAAS 1,0 — a pontuação máxima, equivalente à proteína animal); 9,0g de gordura (23% saturada, 23% monoinsaturada, 54% polinsaturada); 9,9g de hidratos de carbono; 6,0g de fibra; 277mg de cálcio (28% DRI); 5,1mg de ferro (28% DRI); 86mg de magnésio (20% DRI); 322mg de potássio; 1,7mg de manganês (74% DRI); 0,4mg de vitamina B6 (25% DRI). A proteína da soja tem PDCAAS (Protein Digestibility Corrected Amino Acid Score) de 1,0 — a pontuação máxima, partilhada apenas com os ovos e a proteína do leite entre as fontes alimentares comuns. É a única leguminosa com perfil completo de aminoácidos essenciais.

1. Proteína completa: única entre as leguminosas

A soja é única entre as leguminosas por ter proteína completa — todos os aminoácidos essenciais em quantidades adequadas, com particular riqueza em leucina (essencial para a síntese proteica muscular), lisina (deficiente em cereais) e metionina (deficiente noutras leguminosas). O PDCAAS de 1,0 significa que a proteína da soja é tão biologicamente disponível quanto a proteína animal — uma distinção que nenhuma outra leguminosa tem. Para vegetarianos e veganos, a soja (edamame, tofu, tempeh, leite de soja) é a fonte proteica vegetal mais completa e mais próxima funcionalmente da proteína animal. O tempeh, especificamente, tem proteína ainda mais biodisponível pela fermentação que melhora a digestibilidade.

2. Isoflavonas: fitoestrogénios com nuances importantes

As isoflavonas da soja (genisteína, daidzeína, gliciteína) são fitoestrogénios — compostos que se ligam aos receptores de estrogénio com uma afinidade muito inferior à do estrogénio humano (1/1000 a 1/10000) e que produzem efeitos modulados que podem ser estrogénicos ou antiestrogénicos dependendo do contexto hormonal. Este mecanismo de modulação seletiva de receptores de estrogénio (SERM-like) é o que explica aparentes contradições na literatura.

Em mulheres pós-menopáusicas (com estrogénio baixo), as isoflavonas têm efeito estrogénico suave: reduzem os afrontamentos em 20–25% em estudos clínicos, melhoram a densidade mineral óssea e têm efeitos cardiovasculares favoráveis. Em mulheres pré-menopáusicas (com estrogénio normal), as isoflavonas têm efeito antiestrogénico ligeiro — e estudos epidemiológicos de grande escala em populações asiáticas associam o consumo regular de soja a menor risco de cancro da mama, não maior. A revisão científica actual (incluindo a posição da EFSA europeia) é que o consumo moderado de soja (1–2 porções/dia) é seguro para a população geral, incluindo sobreviventes de cancro da mama.

3. Saúde cardiovascular

A FDA americana autorizou em 1999 uma alegação de saúde cardiovascular para alimentos com proteína de soja. A meta-evidência é consistente: a substituição de proteína animal por proteína de soja reduz o LDL em 3–4%, o colesterol total em 4–6% e os triglicéridos em 5–10%. O mecanismo inclui o efeito da proteína de soja na regulação dos receptores hepáticos de LDL, o efeito das isoflavonas na função endotelial e o perfil lipídico da soja (54% polinsaturados, incluindo ácido alfa-linolénico ómega-3). Além disso, a substituição de carne vermelha por soja reduz a gordura saturada e o colesterol dietético associados ao risco cardiovascular.

4. Os mitos da soja: o que a ciência diz

“A soja causa cancro hormonal”: Falso para consumo moderado. Estudos epidemiológicos em populações asiáticas com alto consumo de soja desde a infância mostram menor risco de cancro da mama. Meta-análises de estudos em sobreviventes de cancro da mama não documentam aumento de recorrência com consumo moderado de soja. A posição da EFSA e da maioria das organizações oncológicas é que 1–2 porções/dia são seguras.

“A soja prejudica a tiróide”: Para pessoas com função tiroideia normal, o consumo moderado de soja não causa hipotiroidismo. Pode interferir com a absorção de levotiroxina (medicação de hipotiroidismo) se consumida na mesma hora — por isso, pessoas medicadas para a tiróide devem consumir soja com pelo menos 4 horas de intervalo do medicamento.

“A soja causa problemas hormonais em homens”: Estudos clínicos com doses muito elevadas de isoflavonas não documentam alterações nos níveis de testosterona em homens com consumo normal de soja. O consumo moderado (1–2 porções/dia) é considerado seguro.

A soja aumenta o risco de cancro da mama?

Não — a evidência científica actual contradiz este mito. Meta-análises de estudos em sobreviventes de cancro da mama não documentam aumento de recorrência com consumo moderado (1–2 porções/dia). Estudos epidemiológicos em populações asiáticas com alto consumo de soja mostram menor risco de cancro da mama. A posição da EFSA europeia e da maioria das organizações oncológicas é que o consumo moderado de soja é seguro. Pessoas com cancro hormono-dependente activo devem consultar o oncologista.

A soja prejudica a tiróide?

Para pessoas com função tiroideia normal, o consumo moderado de soja não causa hipotiroidismo. A soja pode interferir com a absorção de levotiroxina (medicação de hipotiroidismo) — por isso, pessoas medicadas devem consumir soja com pelo menos 4 horas de intervalo do medicamento. Consulta sempre o endocrinologista se tiveres hipotiroidismo diagnosticado.

A soja causa problemas hormonais em homens?

Não — estudos clínicos com consumo moderado de soja (1–2 porções/dia) não documentam alterações nos níveis de testosterona, qualidade do esperma ou função sexual em homens. Apenas doses muito elevadas de isoflavonas em suplementos concentrados mostraram alguns efeitos em casos isolados. O consumo alimentar normal de soja é considerado seguro para homens.

Qual a melhor forma de consumir soja?

As formas de soja com maior biodisponibilidade nutricional são: edamame (soja verde imatura — sabor fresco, muito nutritiva), tempeh (soja fermentada — maior digestibilidade proteica, probióticos), tofu (versátil, absorve bem os sabores das receitas), leite de soja (preferir versão sem açúcar adicionado com mínimo de ingredientes). O tofu e o tempeh têm concentrações muito superiores de proteína e isoflavonas do que o leite de soja — preferível para benefícios máximos.

A soja é boa para a menopausa?

Sim, com evidência clínica moderada. As isoflavonas da soja reduzem os afrontamentos em 20–25% em estudos clínicos em mulheres pós-menopáusicas. Têm também efeitos favoráveis na densidade óssea e na saúde cardiovascular no período pós-menopáusico. Os resultados são mais consistentes com doses de 40–80mg de isoflavonas/dia (equivalente a 1–2 porções de alimentos de soja) e o início do efeito leva 8–12 semanas.

O leite de soja é melhor que o leite de amêndoa?

Para conteúdo proteico: sim, muito superior. O leite de soja tem 3–4g de proteína por 100ml (comparável ao leite de vaca); o leite de amêndoa industrial tem apenas 0,4–0,5g. Para cálcio: depende — o leite de soja não tem cálcio natural significativo, mas a maioria é enriquecido; o leite de amêndoa também é tipicamente enriquecido. Para quem procura alternativa ao leite de vaca equivalente em proteína: o leite de soja é a melhor escolha. Para quem tem alergia à soja: leite de aveia ou amêndoa.

Qual a diferença entre soja e edamame?

O edamame são os grãos de soja colhidos ainda imaturos e verdes (antes de secar), geralmente cozinhados na vagem e consumidos frescos ou congelados. A soja madura é o grão seco que, uma vez cozido, tem textura mais firme. Nutricionalmente o edamame tem ligeiramente menos proteína e mais água do que a soja madura, mas é mais fresco, mais palatável e tem maior teor de vitamina C e clorofila. Ambos têm isoflavonas — o edamame é uma das formas mais apetecíveis e fáceis de consumir soja.

Referências científicas

Messina, M. (2016). Soy and health update: evaluation of the clinical and epidemiologic literature. Nutrients, 8(12), 754.

Sacks, F. M., et al. (2006). Soy protein, isoflavonas, and cardiovascular health. Circulation, 113(7), 1034–1044.

Chen, M., et al. (2014). Association between soy isoflavone intake and breast cancer risk. JAMA Internal Medicine, 174(8), 1228–1237.

Lethaby, A., et al. (2013). Phytoestrogens for menopausal vasomotor symptoms. Cochrane Database of Systematic Reviews, (12), CD001395.

Applegate, C. C., et al. (2018). Soy consumption and the risk of prostate cancer: updated systematic review. Nutrients, 10(1), 40.

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